Você certamente já ouviu diversas estórias como a de João da Silva, executivo sênior de uma grande empresa. Ele trabalhou por mais de 20 anos nos principais atores do mercado. Teve uma carreira ascendente e sempre trouxe bons resultados aos seus empregadores.

Ele é um profissional bem reconhecido pelos seus pares no mercado. Até recentemente, era o diretor comercial e pessoa de total confiança do dono da empresa. Ele tinha carta branca na tomada de decisão e usava desse recurso com extrema habilidade em favor da empresa.

Entretanto, os tempos mudaram. Como parte da estratégia de expansão de seu concorrente, sua empresa foi adquirida e sua posição considerada "redundante" em função de o comprador preferir que um profissional de sua confiança e conhecimento pessoal e profissional assumisse as funções de João.

E agora João? Você tem 50 anos, três filhos para criar e um padrão de vida elevado. Apesar do seu currículo invejável e de sua ampla rede de relacionamentos, as estatísticas falam contra você. Os mercados estão se consolidando, o número de empresas que podem absorvê-lo é reduzido e todos seus colegas de mercado viraram seus competidores da noite para o dia.

Estórias como essas explicam as estatísticas recentes da Catho Consultoria RH de que mais de 50% dos executivos acima de 50 anos encontram-se desempregados. Como salvo por uma eventual fatalidade, a grande maioria de nós chegará algum dia aos 50 anos, faz-se necessário pensar desde já num posicionamento de carreira que lhe permita continuar contribuindo para o mundo corporativo sob uma nova e única perspectiva.

A primeira boa notícia é de que com o advento das redes sociais e sua crescente introdução já existe um novo desafio possível de ser encarado: CNO - Chief Networking Officer. Em resumo, ele é o vice-presidente de Redes de Negócios, responsável por transformar todo e qualquer contato em relacionamento profícuo em capital econômico para a empresa.

Ele gerencia os relacionamentos com todos os stakeholders que gravitam ao redor da organização, da inteligência emocional, dos funcionários, dos clientes, dos fornecedores, dos investidores, da mídia, dos canais, entre outros. Ele tem a visão estratégica de onde quer chegar e, principalmente, de com quem quer chegar. Ele usa redes sociais como forma de comunicar, interagir, reagir, atrair, reter toda forma de recursos necessários à implementação profícua de sua estratégia corporativa. Ele trabalha em sintonia fina com os demais departamentos da organização.

Chief Networking Officer é um líder-coach. Aquele que desenvolve profissionais enquanto desenvolve a sua organização e a si próprio no processo. Entretanto, ele atua não apenas na equipe interna. Esse é o grande ponto de partida por ser uma mina de ouro adormecida. Ele atua principalmente em todos os demais relacionamentos fora de seu controle e externos à empresa. E é nisso que reside a verdadeira arte de liderar.

Como é de se supor, o João tem todas as principais características para ocupar essa função. Ou pelo menos de sobreviver como diretor comercial na nova organização, enquanto seu par é alçado ao cargo de CNO. Vejamos algumas delas:

1. Ampla rede de relacionamentos: por já estar a tanto tempo no mercado, ele conhece muitas pessoas. Com quase certeza, com exceção da rede clientes, todos os demais relacionamentos estão desorganizados e sem uma estruturação estratégica com metas e plano de ação. Esse seria o primeiro trabalho a ser feito.
2. Profundo conhecimento técnico do mercado: Esse capital intelectual é extremamente valioso para cair nas mãos de competidores, principalmente, dos estrangeiros que chegam com uma moeda normalmente mais valorizada do que a moeda nacional. E também caro demais para se tornar obsoleto em dois ou três anos.
3. Maturidade profissional e habilidade interpessoal: geralmente, os executivos ligados a negócios em geral possuem habilidades de relacionamento no seu DNA. Eles tendem a ser mais extrovertidos, acessíveis, bons comunicadores e naturalmente interessados em seres humanos, principalmente com o passar dos anos.

Do ponto de vista da empresa, ela também ganha ao não oferecer ao mercado uma oportunidade de ouro de criar seu maior concorrente. Logicamente que com todo o conhecimento sobre os pontos fortes e, principalmente, fracos que toda organização possui, João poderia rapidamente explorar sua rede de relacionamentos que estivesse disposta a investir em apenas um daqueles tantos projetos que foram engavetados com a eterna desculpa da "re-estruturação" ou do "não temos tempo".

O mercado está cheio de casos de ex-executivos que criaram mega casos de sucesso do nada em muito pouco tempo. O mais recente exemplo é Ross Brawn e sua equipe Brawn já virtual campeã de F-1 quando o campeonato ainda nem chegou na sua metade. Por onde anda a Ferrari, seu ex-empregador?

Portanto, a segunda boa nova é que ainda existem poucas empresas que entenderam o real valor e a necessidade de se ter um CNO em seu quadro executivo. Como a competição é quase nula nesse segmento, você pode criar o seu próprio Blue Ocean e se reposicionar como CNO bem antes que novos tempos cheguem até você. Assim, você aumentará as chances de garantir sua empregabilidade em qualquer cenário futuro. E o melhor de tudo, sem perder o status e o padrão de vida com o qual sua família está acostumada.

Se você, caro leitor, se identifica com esse artigo, a hora de agir é essa. Inicie um projeto de gestão de redes de negócios na sua empresa nesse momento. Assuma o papel de Chief Networking Officer. Comece pequeno, envolvendo apenas a sua área de negócios e a de recursos humanos. Comunique internamente todas as conquistas que a implementação dessa metodologia lhe trará. Amplie sua área de atuação na medida em que perceber que os outros departamentos estão maduros para aderir a esse desafio. E navegue em céu de brigadeiro no seu mar azul rumo a uma merecida e justa aposentadoria como CNO de uma grande organização. Amém!


Artigo publicado no RH.com.br em 19.10.2009